O terrorismo ocorrido na América do Sul durante o século XXI

Anselmo Oliveira Rodrigues, Marco Aurélio Vasques Silva

Resumo


O presente artigo tem como objetivo investigar o terrorismo ocorrido na América do Sul entre 2001 e 2018 e quais foram os seus efeitos para à segurança dos Estados sul-americanos nesse período. Para tanto, esse artigo da seguinte forma: introdução, metodologia, aspectos conceituais, resultados e discussão e cosiderações finais.


Palavras-chave


Terrorismo; geopolítica; segurança; América do Sul.

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Referências


INTRODUÇÃO

O início do século XXI ficará marcado por toda a história como um divisor de águas na percepção do terrorismo como ameaça efetiva a um Estado (Reyes 2018). Os atentados ocorridos no dia 11 de setembro de 2001 em solo americano marcaram uma virada na história da segurança e das relações internacionais, na medida em que os mesmos foram orquestrados contra os Estados Unidos da América (EUA), a única potência hegemônica existente no planeta desde o final da Guerra Fria (Souza 2014). Mas a singularidade desses ataques não ficou restrita somente a esse aspecto. Sob a autoria da Al-Qaeda , os atentados ocorreram de forma simultânea em diferentes partes do território continental estadunidense, acarretando dezenas de milhares de vítimas, muitas delas em caráter fatal. Em Nova Iorque, os ataques tinham como objetivo as torres que compunham o complexo empresarial do World Trade Center, símbolo da economia dos EUA. Ao mesmo tempo em Washington, os ataques foram direcionados às instalações do Pentágono, sede da cúpula do poder militar norte-americano.

Tais ataques chamaram a atenção da comunidade internacional para o perigo que determinados grupos representavam para os Estados e, imediatamente, a União Europeia, a Rússia e vários países do globo se solidarizaram e prestaram ajuda aos norte-americanos. A resposta do governo dos EUA face aos atentados ocorridos em 11 de setembro mobilizou todos os setores da sociedade norte-americana e foi oficializada por meio da declaração unilateral emitida pelo presidente George W. Bush, intitulada de Guerra ao Terror (Pacheco 2015). As consequências desse pronunciamento produziram efeitos nos mais variados campos do poder e fez com que a ameaça terrorista passasse a possuir a mais alta prioridade na agenda de segurança do governo norte-americano (Ferreira 2014).

Com foco centrado em desmantelar a Al Qaeda, os norte-americanos descobriram que o grupo era altamente internacionalizado. Ou seja, com o mundo globalizado e altamente interconectado, descobriu-se que o terrorismo do século XXI possuía uma estrutura que não respeitava os limites fronteiriços e apoiava-se numa complexa rede clandestina onde circulava venda ilegal de armamentos, narcotráfico, diamantes e outros ilícitos. Sendo assim, os norte-americanos se lançaram pesadamente no combate ao comércio ilegal de armas, ao narcotráfico e a determinados Estados, os quais entendiam que forneciam suporte para esses grupos. Foi com base nesses argumentos que se deu à revelia da Organização das Nações Unidas (ONU), a investida estadunidense no Afeganistão em 2001 e a invasão no Iraque em 2003.

Localizada na esfera de influência estadunidense, a região sul-americana não ficou imune à política implementada pelo mandatário norte-americano e reagiu a sua maneira diante da mudança de patamar alcançada pela ameaça terrorista no alvorecer do século XXI. Se por um lado, o continente sul-americano é conhecido como uma Zona de Paz, na medida em que não houve guerras entre os Estados da região nos últimos cem anos (Battaglino 2012). Por outro lado, nota-se que houve diversos confrontos curtos e moderados envolvendo Estados e determinados atores não estatais durante esse período na América do Sul, aspecto que coloca em dúvida esse título, bem como permite inferir que a paz sul-americana não significa ausência de conflitos no continente sulamericano (Franchi, Migon e Villareal 2017). Levando-se em consideração esses fatores, torna-se imperioso verificar como se transcorreu a atividade terrorista no continente sul-americano durante o século XXI e quais foram os seus efeitos para a segurança dos Estados sul-americanos durante esse período.

Com o intuito de propor uma sistematização para o estudo elencado, esse artigo está estruturado da seguinte forma: inicialmente é realizada uma ambientação sobre o tema em pauta, ao mesmo tempo em que se apresenta o objetivo de pesquisa. Na sequência, são definidos a taxionomia empregada, o recorte temporal utilizado, a delimitação territorial adotada, bem como o Think Tank escolhido para a coleta e análise dos dados da atividade terrorista. Em seguida, é feito um estudo acerca da evolução desse fenômeno desde a sua origem até os dias atuais. Posteriormente, é realizado um debate acerca das percepções existentes sobre o que venha a ser o terrorismo na esfera acadêmica, no âmbito dos Estados e no seio de algumas instituições. Na sequência, é feito um mapeamento da atividade terrorista ocorrida no continente sul-americano entre 2001 e 2018, destacando os casos em que houve maior incidência desse fenômeno. Na parte final, realizam-se algumas considerações sobre os efeitos do terrorismo para os países sul-americanos.

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

A presente pesquisa é de cunho qualitativo, procurando compreender a manifestação do terrorismo na América do Sul durante o século XXI e os efeitos causados para a segurança dos Estados sul-americanos. No tocante à delimitação temporal, essa pesquisa investigou os atentados terroristas ocorridos entre o ano de 2001 e 2018 no continente sul-americano. Tal recorte histórico foi concebido, pois os eventos ocorridos no dia 11 de setembro de 2001, nos EUA, provocaram a ascensão do terrorismo no cenário mundial a outro patamar, gerando reflexos em todos os países do sistema internacional.

Nessa pesquisa, tem-se como corpo de dados o conjunto que registra os atentados terroristas ocorridos nos países da América do Sul entre o ano de 2001 e o ano de 2018, elementos que são analisados sob a perspectiva geopolítica. Acredita-se que assim procedendo, foi possível compreender sobre a ocorrência do terrorismo na região e os efeitos causados sobre a segurança dos países sul-americanos.

Um estudo realizado pela Universidade da Pensylvania, nos EUA, apontou a existência de oito mil, duzentos e quarenta e oito (8.248) Think Tanks em funcionamento no mundo no ano de 2018 (MCGann 2019). Logo, tão importante quanto estabelecer um recorte temporal, é escolher uma fonte adequada para a coleta dos dados. Tendo em vista essa realidade, a presente pesquisa optou por coletar os dados referentes à prática terrorista na base de dados conhecida como Global Terrorism Database (GTD), da Universidade de Maryland, nos EUA. A escolha pela GTD está apoiada em dois aspectos, a saber: 1) a regularidade na emissão de seus relatórios (confirmada pela publicação anual de seus estudos); e 2) o tempo em que o mesmo está debruçado sobre o assunto (este banco de dados registra e classifica os dados de todos os atentados terroristas ocorridos no planeta desde o ano de 1970) (GTD 2018).

No que concerne à delimitação conceitual, como a proposta dessa pesquisa é verificar a ocorrência do terrorismo na América do Sul e verificar os efeitos para a segurança dos países sul-americanos, este artigo considerou todos os tipos de ataques terroristas tipificados na base de dados da Global Terrorism Database.

A EVOLUÇÃO DO TERRORISMO

Por mais representativo que seja o evento ocorrido no dia 11 de setembro de 2001, o terrorismo não é algo novo e nem tampouco se encontra isolado no momento histórico. Na verdade, nota-se que esse fenômeno evoluiu ao longo dos tempos, recebendo influências de cada época. Adquirindo novas formas de financiamento e incorporando novas tecnologias, o terrorismo tem-se tornado cada vez mais violento e suas ações atualmente possuem alcance global (Rabelo 2018). Em linhas gerais, a evolução histórica do terrorismo pode ser dividida em dois períodos: Terrorismo Clássico e Terrorismo Moderno.

1 Terrosimo Clássico (146 a.C. - Final do século XVIII)

Os primeiros registros de terrorismo no planeta datam do ano de 146 a.C., nas ações perpretadas pelo Império Romano durante o conflito travado entre Roma e Cartago. Com o intuito de eliminar a possibilidade de insubmissão de outros povos ao seu império, as forças militares romanas não se limitaram ao embate conduzido contra as forças militares de Cartago. Sem respeitar mulheres, idosos e crianças, os romanos eliminaram a maior parte da população cartagenesa e destruíram a cidade de Cartago, deixando-a completamente em ruínas (Carr 2003). A Terceira Guerra Servil é outro exemplo de prática terrorista conduzida pelo Império Romano. Após vencerem este embate, os romanos atuaram em conformidade com as leis de Roma que vigoravam na época e crucificaram cerca de 6.000 revoltosos ao longo da Via Ápia, no caminho de Cápua a Roma (Gus 2015).

No século I d.C., a prática terrorista assumiu outras formas, vindo a se manifestar sob a forma religiosa na região que compreende o atual Estado da Palestina. Nesse período, por entenderem que os romanos eram os invasores de sua terra sagrada, os Zealots se revoltaram contra o domínio praticado pelo Império Romano nesse período (66 d.C. - 70 d.C.) e realizaram sequestros de autoridades romanas, bem como praticaram assasinatos nos oficiais romanos e colaboradores judeus (Chaliand 2007). Cerca de mil anos depois, constata-se outra manifestação terrorista de cunho religioso no Oriente Médio. Insatisfeitos com o movimento das Cruzadas e o consequente domínio ocidental praticado durante os séculos XII d.C. e XIII d.C., os Assassins realizavam assassinatos contra as elites muçulmanas e os ocidentais na atual região do Irã e da Síria, pois os consideravam povos invasores e injustos (Richardson 2007).

Dessa forma, o terrorismo foi evoluindo ao longo dos tempos e em finais do século XVIII d.C., ganhou novos contornos. Utilizando o poder estatal, os jacobinos praticaram o terror na França, enviando à guilhotina qualquer pessoa que se declarasse contrária às novas ideias introduzidas pela Revolução Francesa (Schmid 2011b). Considerada um marco na história da humanidade, a Revolução Francesa também foi importante na evolução do terrorismo, pois simbolizou o final do terrorismo clássico.

2 Terrosimo Moderno (Final do Século XIX - Dias atuais)

Se a Revolução Francesa marcou o término do terrorismo clássico, pode-se dizer que a Revolução Industrial foi determinante para o surgimento de uma nova prática terrorista. O advento tecnológico proporcionado pela Revolução Industrial, sobretudo na área das comunicações, no setor de transportes e na química, associado a uma nova ordem capitalista, semeou as bases do terrorismo moderno, que teve origem em 1881, na Rússia e permanece até os dias atuais (Shafritz, Gibbons e Gregory 1991). Nesse período, a prática terrorista evoluiu de forma semelhante como as ondas do mar, com início, ápice e enfraquecimento de cada ciclo terrorista se relacionando com o contexto histórico de cada época, fato que levou ao surgimento e à formação de quatro distintas ondas (Rapoport 2002).

A primeira onda ou Onda Anarquista teve início em 1881, com o assassinato cometido pelo grupo Narodnaya Volia contra a vida do Czar Alexandre II, na Rússia. Com claros objetivos políticos e com forte incidência em solo europeu, essa onda ficou marcada pela grande quantidade de atentados realizados contra as autoridades políticas, registrando inúmeros casos de assassinatos a príncipes, reis, presidentes e outras personalidades dessa época (Rapoport 2002). O término da 1ª Guerra Mundial e a consequente assinatura do Tratado de Versalhes em 1920 balizou o término da primeira onda.

Além de ocasionar uma mudança nas peças do tabuleiro estratégico mundial, o Tratado de Versalhes também foi capaz de gerar um clima de extrema insatisfação entre as nações perdedoras do conflito bélico, pois as mesmas se viram fragmentadas por grupos separatistas internos. Este ambiente político permitiu o início de um novo ciclo da atividade terrorista, dando origem a segunda onda ou Onda Anticolonial em 1920 (Rapoport 2002). Tendo como principal motivação a autodeterminação dos povos, Rezende e Scwether (2015) apontam que essa onda teve grande incidência na África e ficou marcada pela utilização de táticas de guerrilha na prática terrorista. O término da 2ª Guerra Mundial reconfigurou novamente as peças do tabuleiro estratégico mundial e fez com que a Onda Anticolonial perdesse sua impulsão no início da década de 1950. A eclosão da Guerra do Vietnã, em 1955, e da Revolução Cubana, em 1959, decretaram o fim simbólico da segunda onda.

Foi nesse contexto que surgiu a terceira onda ou Nova Esquerda em 1960. Essa onda recebeu fortes influências desses dois episódios. De um lado, a Guerra do Vietnã serviu de inspiração para o recrudescimento de grupos marxistas, principalmente nos Estados Unidos da América, pois indicou que a resistência oferecida pelos vietnamitas poderia fazer frente aos norte-americanos e que o sistema capitalista estava cada vez mais vulnerável ao avanço do Comunismo no âmbito da Guerra Fria. De outro lado, o exemplo de Cuba também serviu como pólo irradiador para o desencadeamento de uma onda de revoluções comunistas por todo o mundo (Chaliand e Blin 2007). Com grande incidência no continente africano e na América Latina, o terrorismo ocorreu no contexto desses movimentos, os quais eram apoiados pela ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) (Rapoport 2002). A terceira onda começou a perder suas forças com o declínio da ex-URSS em finais da década de 1970, e teve o seu término decretado na década de 1990, com o colapso soviético e o fim da Guerra Fria.

A perda de fôlego da terceira onda possibilitou o surgimento da quarta onda ou Onda Religiosa. A onda religiosa teve seu início em 1979, com a Revolução Islâmica do Irã e permanece até os dias atuais. No entanto, foi somente com o fim da Guerra Fria e a consequente globalização que a quarta onda ganhou o impulso necessário para obter vida própria. De maneira hábil e inteligente, a quarta onda apoiou-se nas oportunidades geradas pela globalização, particularmente através da internet, e proporcionou ao terrorismo alcance e força sem precedentes na história (MCAllister e Schimd 2011). Em síntese, a principal característica da quarta onda é a religião se sobrepondo às questões étnicas na organização dos Estados, com o extremismo religioso exercendo o papel de condutor de ataques terroristas no planeta (Rapoport 2002).

O CONCEITO DE TERRORISMO

Entender terrorismo não é simples. Buscando conhecer o terrorismo de forma mais ampla, Schimd (2011b) realizou uma investigação e verificou a existência de mais de 100 definições acerca da atividade terrorista. Mesmo com essa grande quantidade de conceitos, essa pesquisa apontou alguns aspectos que estão presentes na maioria desses conceitos e que de alguma forma indicam as principais características do terrorismo: os termos força e violência estão presentes em mais de 80% das definições; o termo política está presente em 65% dos conceitos levantados; e a palavra medo aparece em 51% dos conceitos analisados (Schimd 2011b). Diante diss, esse estudo não possui a pretensão de esgotar esse assunto e procura somente verificar como o terrorismo é compreendido no meio acadêmico, no âmbito institucional e na esfera estatal.

1 O debate acadêmico

Crozier (1960) inaugura esse debate e correlaciona a atividade terrorista à política, definindo-o como a utilização da ameaça ou da violência para alcançar fins políticos. Fotion converge com Crozier e estabelece que o terrorismo é a implementação de uma política de intimidação coerciva destinada a alcançar algum fim político (Fotion 2004). Neuman (2009) dialoga com a dupla anterior e conceitua terrorismo como sendo a ameaça ou o uso da violência com o fim de influenciar o comportamento político de um público específico. Nesses pontos de vista, nota-se que a atividade terrorista está ligada à política.

Para Lewis, terrorismo é uma forma de agressão que possui o propósito de gerar medo e insegurança nas pessoas e nos governos, atingindo a população civil e as infraestruturas (Lewis 2005). Por seu turno, Bjørgo (2005) define terrorismo como sendo um conjunto extremamente complexo de fenômenos, sendo necessário um estudo em suas causas e origens para obter o adequado entendimento do ato terrorista. Já Pape, propõe que o terrorismo pode ser compreendido com base nos seus resultados, sob uma ótica de que os fins justificam os meios (Pape 2003). Nessa concepção, a prática do terrorismo suicida, onde uma pessoa morre diante de um objetivo maior, é o melhor exemplo da proposta enunciada por Pape.

Weimann (2005) analisa esse fenômeno de acordo com as mudanças ocasionadas pela globalização e propõe que o terrorismo atual é uma manifestação que se utiliza da internet para expressar sua insatisfação com a sociedade atual, bem como a utiliza para potencializar seu alcance e seus resultados. Stohl (2004) insere ingredientes adicionais e entende que atualmente há o ciberterrorismo e o define como sendo o uso da internet como um veículo, pelo qual se realizam ataques aos objetivos.

Pelo que foi exposto, observa-se que no meio acadêmico não há consenso do que venha ser esse fenômeno e que tipo de características ele carrega consigo. Pelo contrário, nota-se uma variedade enorme de conceitos acerca da manifestação da ocorrência terrorista.

2 A perspectiva institucional

No âmbito das instituições, conceituar terrorismo também não é simples. Para que se tenha uma ideia, até hoje as Nações Unidas não conseguiram chegar a um consenso sobre o assunto. Para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), principal aliança militar do mundo, o terrorismo consiste na ameaça ou no uso ilegal da força que, incutindo medo e terror contra indivíduos ou propriedades, procura coagir, intimidar governos, pressionar a sociedade e controlar a população, e tem a finalidade de alcançar objetivos políticos, religiosos ou ideológicos (Nato Standardization Office 2018).

Por sua vez, a National Consortium for the Study of Terrorism and Responses to Terrorism (START), um dos principais Think Tanks especializados nesse assunto, define terrorismo como sendo a manifestação realizada por um ator não estatal que, por meio de ameaça ou pela força, realiza ações direcionadas para alcançar objetivos políticos, econômicos, religiosos ou sociais (GTD 2018). Por seu turno, o International Institute for Conteur-Terrorism (ICT), outro Think Tank especializado em terrorismo, entende que a atividade terrorista está baseada em três aspectos: 1) a utilização da violência é a essência da atividade, 2) o objetivo da atividade é sempre político e 3) os alvos do terrorismo sempre estão direcionados à população civil (Ganor 2010).

Dessa forma, observa-se que as instituições possuem a mesma dificuldade encontrada no meio acadêmico quando se propõem a entender o terrorismo e imputar uma definição que melhor se adequa a esse fenômeno.

3 O posicionamento estatal

Procurando depreender como os países se posicionam acerca desse fenômeno, nota-se que cada Estado define terrorismo conforme seus interesses. Ou seja, fatores de ordem política, militar, ideológica, econômica e social presentes em cada país são determinantes para a elaboração do conceito.

O Departamento de Estado dos EUA entende que o terrorismo se manifesta sob três perspectivas: terrorismo doméstico, terrorismo internacional e grupo terrorista. Em todas elas, o governo norte-americano define terrorismo como sendo o uso da violência por parte de alguns grupos subnacionais ou agentes clandestinos, direcionada contra alvos não combatentes (United States of America 2000). O governo do Reino Unido compreende o terrorismo como sendo a utilização de qualquer tipo de violência que coloca o público em medo, com a finalidade de alcançar determinados obejtivos políticos (United Kingdon 1974). Por sua vez, o governo alemão define terrorismo como sendo os atos criminosos (assassinato, homicídio, seqüestro por extorsão e explosões) direcionados à vida e a propriedade de pessoas, com fins políticos (German Federal Republic 1985). Para o governo brasileiro, o terrorismo consiste em atos praticados por pessoas que, motivadas por questões xenofóbicas e discriminatórias, são cometidos com o propósito de causar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio e a paz pública (Brasil 2016).

Em que pese à falta de consenso, a dificuldade existente e o jogo de interesses no meio político para definir terrorismo, não restam dúvidas de que o terrorismo atual é um fenômeno complexo de alcance global e que traz grande impacto para a paz e segurança internacionais, gerando efeitos nas relações estabelecidas entre os Estados.

O TERRORISMO NA AMÉRICA DO SUL DURANTE O SÉCULO XXI

Entre 2001 e 2018, o continente sul-americano concentrou cerca de 2,3% dos atentados terroristas ocorridos no mundo, percentual que indica baixa incidência da atividade terrorista na região (GTD 2019). No entanto, essses dados não proporcionam um diagnóstico fidedigno da ocorrência desse fenômeno na América do Sul, tornando-se necessário analisá-lo sob diversas perspectivas:

Gráfico nº 1 - A evolução do terrorismo na América do Sul durante o século XXI

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

O gráfico nº1 apresenta a evolução do terrorismo ao longo do século XXI no continente sul-americano e nos revela que esse fenômeno apresentou queda acentuada a partir de 2001 e manteve-se estável até 2007, momento que iniciou um ciclo de alta, registrando o seu ápice em 2014. Entre 2014 e 2016, nota-se declínio da atividade terrorista na região e a partir de 2016, observa-se que o terrorismo está em ascenção na América do Sul.

Procurando compreender como se deu a manifestação desse fenômeno no âmbito dos Estados entre 2001 e 2018, o quadro a seguir apresenta o ranking do terrorismo na América do Sul e nos auxilia na compreensão desse fenômeno sob outra perspectiva:

Quadro nº 1: Ranking do terrorismo na América do Sul no século XXI

Posição Estados Quantidade de atentados terroristas

º Colômbia 2.048

º Chile 127

º Paraguai 85

º Peru 82

º Venezuela 59

º Equador 34

º Argentina 31

º Brasil 27

º Bolívia 10

º Guiana 08

º Uruguai 02

º Guiana Francesa 00

º Suriname 00

Total 2513

Fonte: elaboração própria, com dados do Global Terrorism Database 2019.

A quantidade de atentados terroristas registrados (2.513 casos) nesse período denota que esse fenômeno esteve presente no continente sul-americano e gerou reflexos para a segurança em boa parte dos Estados sul-americanos. Quando se observa a ocorrência terrorista no âmbito estatal, constata-se que a mesma não se manifestou de maneira uniforme na região. Se por um lado, houve Estados com elevada quantidade de atentados terroristas. Por outro lado, houve Estados que não registraram sequer uma única ocorrência terrorista em seus limites. O quadro nº 1 também nos revela que alguns Estados obtiveram números semelhantes relativos à prática terrorista em seus domínios.

Sob uma perpspectiva geopolítica, observa-se a existência de grupos de países no continente sul-americano, distinguidos conforme a quantidade de atentados terroristas registrados em seus domínios, os quais são tipificados por código de cores:

Quadro nº 2: A arquitetura geopolítica do terrorismo na América do Sul

Grupos Cores Estados Atentados terroristas

º Colômbia Igual ou superior a 1.000

---- Não houve países Entre 500 e 999

º Chile Entre 100 e 499

º Paraguai - Peru - Venezuela Entre 50 e 99

º Equador - Argentina - Brasil Entre 25 e 49

º Bolívia - Guiana - Uruguai Entre 01 e 24

º Guiana Francesa - Suriname 00

Fonte: elaboração própria, 2019.

Como não houve países sul-americanos que apresentaram números relativos à prática terrorista situados no intervalo entre 500 e 999, nota-se que a arquitetura geopolítica do terrorismo no América do Sul está formada apenas por seis grupos de países.

O primeiro grupo é constituído apenas pela Colômbia, pois foi o único país que registrou mais de 1000 atentados terroristas em seus domínios; o segundo grupo é formado somente pelo Chile, pois foi o único Estado sul-americano que os números relativos à prática terrorista situaram-se no intervalo entre 1001 e 499; o terceiro grupo comporta três Estados: Paraguai, Peru e Venezuela. Esses países tiveram números que variaram entre 50 e 99 atentados terroristas; o quarto grupo é composto por três Estados: Equador, Argentina e Brasil. Esses países obtiveram números que variaram entre 25 e 49 atentados terroristas em seus limites; o quinto grupo também possui três Estados: Bolívia, Guiana e Uruguai. Esses países apresentaram números ainda mais baixos que o grupo anterior, ficando na faixa compreendida entre 01 e 24 atentados terroristas; e o sexto grupo é formado apenas por países que não registraram atividade terrorista em seus limites: Guiana Francesa e Suriname.

Todavia, para verificar a ocorrência do terrorismo sob a ótica geopolítica, torna-se necessário analisar a ocorência desse fenômeno em cada um desses grupos.

1 Primeiro grupo - Colômbia

Com 2.048 casos, a Colômbia foi responsável por aproximadamente 81,5% da atividade terrorista praticada na América do Sul durante o século XXI (GTD 2019). Esses dados revelam a ocorrência de quase 10 atentados terroristas por mês no território colombiano, durante o século XXI, indicando que a prática terrorista foi expressiva neste país. O gráfico seguinte complementa essas informações, apresentando a evolução do terrorismo entre 2001 e 2018 na Colômbia:

Gráfico nº 2 - A evolução do terrorismo no primeiro grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

O gráfico anterior revela que o terrorismo na Colômbia estabeleceu uma dinâmica muito semelhante com o terrorismo ocorrido na América do Sul. Tal qual no continente sul-americano, a atividade terrorista iniciou o século XXI registrando forte queda até 2004, momento em que se manteve estável até 2007. A partir deste ano, o terrorismo iniciou expressivo ciclo de alta, registrando o seu pico em 2014, momento em que ocorreu novo declínio da atividade terrorista, se extendendo até 2016. Desde então, de forma distinta com o terrorismo sul-americano, a prática terrorista tem se mantido estável na Colômbia, apresentando números inferiores aos obtidos em 2001.

Figura nº 1: O terrorismo no primeiro grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

Sob a lente geopolítica, depreende-se que a probabilidade desse fenômeno transbordar-se para os países vizinhos, gerando reflexos para a segurança desses países é elevada. A porosidade da floresta amazônica e a instabilidade venezuelana potencializam os efeitos colaterais do terrorismo colombiano. Com números elevados, compreende-se que as consequências geradas pela atividade terrorista são variadas e complexas, pelo que essa pesquisa aponta o terrorismo colombiano como um fenômeno que precisa ser mais estudado pelo meio acadêmico e pelas autoridades públicas.

2 Segundo grupo - Chile

Com 127 atentados terroristas, o Chile foi responsável por aproximadamente 5,1% da atividade terrorista praticada no continente sul-americano durante o século XXI (GTD 2019). Esses dados revelam a média de um atentado terrorista ocorrido a cada dois meses em território chileno, fato que não deve ser desconsiderado, na medida em que a atividade terrorista se fez presente no país. O gráfico seguinte complementa essas informações, apresentando a evolução do terrorismo entre 2001 e 2018 no Chile:

Gráfico nº 3 - A evolução do terrorismo no segundo grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

O gráfico anterior nos informa que a atividade terrorista ocorrida no Chile se descolou do terrorismo verificado na América do Sul e estabeleceu dinâmica própria. Em síntese, pode-se inferir que o terrorismo ocorrido no século XXI em terras chilenas teve quatro distintos períodos.

O primeiro iniciou em 2001 e terminou em 2006. Neste recorte temporal, nota-se que a principal característica desse fenômeno repousa na estabilidade, associada ao registro de poucos atentados terroristas. O segundo teve início em 2007 e término em 2012. Neste período, observa-se que a prática terrorista apresentou uma trajetória de altos e baixos, obtendo médias anuais relativamente baixas, porém ligeiramente maiores dos que as registradas no período anterior. O terceiro teve início em 2013 e término em 2015. Neste curto espaço de tempo, a atividade terrorista ocorrida no Chile apresentou duas características bem marcadas: a potencialidade e a instabilidade. Se por um lado, houve o registro de quase vinte atentados terroristas em 2014. Por outro lado, observou-se a inexistência da prática terrorista em 2015. O quarto período, que teve início em 2016 e perdura até os dias atuais, é o mais preocupante de todos. A trajetória estabelecida pelo terrorismo neste recorte temporal revela que esse fenômeno está em forte ascenção e vem registrando as maiores quantidades de atentados terroristas ocorridos no Chile durante o século XXI.

Figura nº 2: O terrorismo no segundo grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

Sob a lente geopolítica, entende-se que a probabilidade desse fenômeno ocasionar efeitos colaterais para os países vizinhos é mínima. A configuração geográfica chilena não favorece o transbordamento desse fenômeno para os demais países sul-americanos. A existência de importantes acidentes naturais em suas bordas: o Deserto do Atacama ao norte, a Cordilheira dos Andes a leste, a Patagônia ao sul e o Oceano Pacífico a oeste, deixa o país chileno isolado geograficamente dos demais países da região. Todavia, a trajetória ascendente do terrorismo a partir de 2016, associada à expressiva quantidade de atentados ocorridos nos últimos anos, transformam o caso chileno numa equação geopolítica complexa, pelo que essa pesquisa indica que especial atenção deve ser dada à ocorrência do terrorismo no Chile.

3 Terceiro grupo - Paraguai, Peru e Venezuela

Com 227 atentados terroristas registrados em seus domínios, esses países foram responsáveis por cerca de 9,0% da atividade terrorista registrada no continente sul-americano durante o século XXI (GTD 2019).

Gráfico nº 4 - A evolução do terrorismo no terceiro grupo de países

Fonte: elaboração própria, com dados do Global Terrorism Database 2019.

O gráfico nº 4 nos mostra que o terrorismo evoluiu de forma distinta em cada um dos três países pertencentes a esse grupo.

O Paraguai registrou três períodos no processo de evolução do terrorismo. O primeiro teve início em 2001 e término em 2009. Sua principal característica é a inexistência de atentados terroristas. O segundo iniciou em 2010 e terminou em 2015, período em que o terrorismo apresentou uma trajetória ascendente. O terceiro, que teve início em 2016 e perdura até os dias atuais, ficou marcado pelo declínio do terrorismo.

O Peru teve dois períodos no processo de evolução do terrorismo. O primeiro iniciou em 2001 e terminou em 2011. Neste recorte, a prática terrorista apresentou uma trajetória de altos e baixos, apresentando médias anuais relativamente baixas. O segundo, que teve início em 2012 e perdura até os dias atuais, é preocupante, pois está caracterizado pela trajetória ascendente do terrorismo no Peru.

A Venezuela teve três períodos. O primeiro teve início em 2001 e término em 2011. Neste período, nota-se que a prática terrorista registrou uma trajetória de altos e baixos, apresentando declinio ao longo dos anos, a tal ponto de não ter registrado atentados terroristas em 2010 e 2011. O segundo, que iniciou em 2012 e se extendeu até 2017, ficou marcado pela trajetória ascendente do terrorismo e pela obtenção em 2017 das maiores quantidades de atentados terroristas ocorridos em um único ano no país. O terceiro iniciou em 2018 e aponta para o declínio do terrorismo venezuelano.

Figura nº 3: O terrorismo no terceiro grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

Sob a lente geopolítica, especial atenção deve ser dada à Venezuela. A atual situação política venezuelana associada à longa fronteira estabelecida com a Colômbia, país onde houve a maior quantidade de atentados terroristas na América do Sul, indica que a probabilidade desse fenômeno se transbordar para os países vizinhos ou até mesmo exportar pessoas envolvidas com a atividade terrorista é elevada. Todavia, não se deve desconsiderar o caso peruano, pois a trajetória ascendente apresentada pelo terrorismo a partir de 2016, associada à fronteira que estabelece com a Colômbia, torna concreta a probabilidade de internacionalização da atividade terrorista ocorrida no Peru e o transbordamento da mesma para outras regiões. Mesmo tendo registrado os maiores números relativos à prática terrorista neste grupo, o caso paraguaio é o que requer nível de prioridade mais baixo. O posicionamento insular do Paraguai, associado à trajetória descendente do terrorismo registrada a partir de 2016, indica que esse fenômeno está se enfraquecendo e tem poucas probabilidades de gerar efeitos colaterais em outros países.

4 Quarto grupo - Equador, Argentina e Brasil

Com 92 atentados terroristas, esses países foram responsáveis por cerca de 3,6% terrorismo praticado no continente sul-americano durante o século XXI (GTD 2019).

Gráfico nº 5 - A evolução do terrorismo no quarto grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

O gráfico nº 5 nos mostra que no Equador houve três períodos no processo de evolução do terrorismo. O primeiro iniciou em 2001 e término em 2007. O segundo iniciou em 2008 e terminou em 2014. O terceiro, que teve início em 2015 e perdura até os dias atuais, indica que o terrorismo está em ascenção no Equador.

Na Argentina, houve dois períodos. O primeiro iniciou em 2001 e terminou em 2014. O segundo período, que iniciou em 2015 e perdura até os dias atuais, indica que o terrorismo está em ascenção na Argentina.

O Brasil teve três períodos. O primeiro iniciou em 2001 e terminou em 2007. O segundo, que iniciou em 2008 e terminou em 2011, ficou marcado pela inexistência de atentados terroristas. O terceiro, que iniciou em 2015 e perdura até os dias atuais, indica que o terrorismo também está em ascenção no Brasil.

Figura nº 4: O terrorismo no quarto grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

Sob a perspectiva geopolítica, compreende-se que o caso equatoriano merece mais atenção. A trajetória ascendente apresentada pelo terrorismo a partir de 2015, associada à fronteira que estabelece com a Colômbia e com o Peru, torna concreta a probabilidade de internacionalização da atividade terrorista ocorrida no país equatoriano. Passando a analisar o Brasil, nota-se que o gigante sul-americano contém elementos geopolíticos que precisam ser considerados. A trajetória ascendente apresentada pelo terrorismo a partir de 2015, associada às extensas fronteiras estabelecidas com a Colômbia e com a Venezuela na porosa floresta amazônica, torna concreta a probabilidade de internacionalização da atividade terrorista ocorrida no Brasil. Embora tenha registrado uma trajetória ascendente no terrorismo, entende-se que o caso argentino requer nível de prioridade mais baixo. A conformação geográfica argentina deixa o país portenho relativamente isolado e distante dos locais onde ocorreram as maiores incidências da prática terrorista no continente sul-americano.

5 Quinto grupo - Bolívia, Guiana e Uruguai

Com 20 atentados terroristas, esses países foram responsáveis por apenas 0,8% da atividade terrorista praticada no continente sul-americano no século XXI, números que denotam a ocorrência de um fenômeno irrevelante no contexto regional (GTD 2019).

Gráfico nº 6 - A evolução do terrorismo no quinto grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

Com exceção de um único período na Bolívia e na Guiana, o gráfico anterior nos mostra que os três Estados registraram números insignificantes relativos à prática terrorista em seus territórios, pelo que se depreende que esse fenômeno quase não se fez presente nesses países entre 2001 e 2018.

Isto posto, conclui-se que houve apenas um único período onde ocorreu atividade terrorista na Bolívia. Com início em 2007 e término em 2010, o terrorismo caracterizou-se por uma trajetória de altos e baixos, registrando números muito baixos. No restante dos anos, essa pesquisa entende que não houve prática terrorista em terras bolivianas. Na Guiana, entende-se que a prática terrorista se fez presente somente em 2008, com o registro de 3 casos. No restante dos anos, essa pesquisa compreende que não houve prática terrorista na Guiana. Com apenas dois atentados terroristas registrados em 18 anos, essa pesquisa entende que o terrorismo foi inexpressivo em terras uruguais entre 2001 e 2018.

Figura nº 5: O terrorismo no quinto grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

Sob a perspectiva geopolítica, observa-se que a prática terrorista esteve rarefeita nesses países. Com números insignificantes, entende-se que atividade terrorista ocorrida nesses Estados não é estruturada e robusta o suficiente para gerar efeitos colaterais nos demais países da região e nem tampouco está articulada o suficiente para estabelecer relações com outros grupos sediados em outros países.

6 Sexto grupo - Guiana Francesa e Suriname

Sem nenhum caso registrado no século XXI, entende-se que a região formada por esses dois países é a única que pode ser chamada de Zona de Paz na região, nas questões afetas ao terrorismo.

Figura nº 6: O terrorismo no sexto grupo de países

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

Sob a perspectiva geopolítica, compreende-se que a instabilidade venezuelana, associada à relativa proximidade com a Colômbia, torna concreta a probabilidade da ocorrência da atividade terrorista nos próximos anos nessa região, colocando em perigo a continuidade da existência dessa Zona de Paz na América do Sul.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O terrorismo é um fenômeno que possui mais de 2.000 anos de existência. Durante esse período, o terrorismo nunca se descolou da sociedade. Pelo contrário, o mesmo veio evoluindo com o decorrer dos anos e carregou consigo carcaterísticas importantes do contexto histórico de cada época. A Revolução Francesa, a Revolução Industrial, a 1ª Guerra Mundial, a 2ª Guerra Mundial, a Guerra Fria e a Globalização são exemplos dessa assertiva. Atualmente, a sociedade presencia a fase do terrorismo religioso que, auxiliado pela globalização, detém alcance mundial em suas ações.

Quando comparada a nível global, realmente a América do Sul registrou uma quantidade insignificante de atentados terroristas no século XXI. Porém, esse fato induziu a uma percepção equivocada da incidência do terrorismo na região. Na verdade, esse estudo revelou que houve 2.513 casos de terrorismo registrados entre 2001 e 2018 e que esse fenômeno se manifestou de forma multifacetada durante esse período no continente sul-americano, evidenciando distintos níveis de intensidade, conforme a figura abaixo:

Figura nº 7: O terrorismo na América do Sul sob uma perspectiva geopolítica

Fonte: elaboração própia, com dados do Global Terrorism Database 2019.

Sob a perspectiva geopolítica, a figura nº 7 revelou que o terrorismo manifestou-se em seis níveis de intensidade na América do Sul, distinguidos de acordo com a quantidade de atentados terroristas ocorridos entre 2001 e 2018 nos países da região.

Com 81,5% dos casos terroristas ocorridos na América do Sul, não resta dúvidas de que o caso colombiano merece mais atenção, pois o mesmo possui possibilidades concretas em gerar efeitos na segurança de vários países sul-americanos.

O Chile, por seu turno, foi responsável por 5,1% da atividade terrorista ocorrida no continente. Ou seja, a cada dois meses houve um atentado terrorista no Chile, fato que não deve ser menosprezado pelos Estados, pelas autoridades públicas e pela academia. Devido à conformação geográfica chilena, entende-se que a probabilidade desse fenômeno transbordar-se para outros países sul-americanos ou receber a influência de atividade terrorista oriunda de outros países é mínima.

Dentre os países pertencentes ao 3º, 4º e 5º grupos, essa pesquisa sugere especial atenção para a Venezuela. A instabilidade estatal venezuelana, associada à sua posição geográfica, conforma uma resultante capaz de impulsionar o terrorismo ocorrido em terras venezuelanas, gerando efeitos para diversos países sul-americanos.

O Suriname e a Guiana Francesa foram os únicos países que não registraram atividade terrorista na América do Sul, pelo que essa pesquisa sugere que é a única região que pode ser chamada de Zona de Paz no continente sul-americano, nas questões afetas ao terrorismo.

Por fim, esse estudo chegou a uma conclusão de que o continente sul-americano obteve casos significativos de terrorismo e os resultados obtidos por essa investigação deixaram claro que a percepção de que não há terrorismo na América do Sul é equivocada e deve ser revista.

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DOI: https://doi.org/10.26792/rbed.v6n2.2019.75144

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